terça-feira, 10 de maio de 2011

Grãos orgânicos são alternativa para alimentar criação

Obter milho e soja convencionais, ou seja, não-transgênicos, é um dos principais gargalos para avicultores e suinocultores que pretendem adotar o sistema orgânico de criação em suas propriedades. “É um gargalo gigantesco”, diz o gerente industrial Luiz Carlos Demattê Filho, da Korin, de Ipeúna (SP), a principal agroindústria produtora de frango orgânico do País. Além de convencional, a semente tem de ser cultivada de maneira orgânica, de modo, ainda, a evitar a temida “contaminação cruzada”, ou seja, o pólen de milho transgênico de alguma maneira alcançar o convencional e daí surgirem espigas transgênicas em plena lavoura convencional. A necessidade de isolar lavouras por parte do produtor orgânico será crescente, pelo menos nos próximos anos.
Basta ver o avanço das lavouras de milho transgênico desde 2008, ano da aprovação do uso da tecnologia no País. Conforme estudo da consultoria Céleres, a pedido da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), “na safra 2009/2010, analisada nos estudos, 32,5% da produção brasileira de milho utilizou variedades transgênicas. Um ano depois – e três anos após a chegada do milho GM às lavouras – esse índice já era de 57%, chegando a 75% na safrinha de inverno. Como comparação, segundo Anderson Galvão, da Céleres, a soja GM, cujo plantio no Brasil foi aprovado na safra 2005/2006 (mas que ilegalmente já era plantada em solo brasileiro desde o início dos anos 2000), demorou nove anos para atingir os mesmos 57% do plantio total brasileiro de soja.
”Neste mesmo estudo, porém, a bióloga Paula Carneiro prevê que, “nos próximos dez anos, a adoção da biotecnologia na cultura do milho possibilitará uma redução da área semeada com esse cereal de 49,5 milhões de hectares”, dado o grande aumento de produtividade resultante das lavouras transgênicas. Entretanto, enquanto essa redução de área plantada não ocorre, os produtores orgânicos do cereal preocupam-se em isolar suas áreas. No Sudeste, segundo Demattê, o problema ainda não é tão grave. “Produtores de milho orgânico não cultivam grandes extensões, daí a maior facilidade de instalar a cultura em áreas onde não haja por perto lavouras de milho convencional, o que aumentaria o risco de contaminação cruzada”, diz.
No Sul, porém, justamente onde o milho mais avançou, com 1,5 milhão de hectares plantados, e há maior tradição em cultivos orgânicos, talvez seja mais complicado fazer a separação entre lavouras com grãos convencionais cultivados organicamente e lavouras transgênicas. Demattê ressalta outro ponto que já foi discutido na Câmara Setorial de Agricultura Orgânica, abrigada no Ministério da Agricultura: “Estamos questionando as normas que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) estipulou para isolar áreas de grãos convencionais dos transgênicos, porque acreditamos que não sejam suficientes para realmente proteger os cultivos orgânicos”, diz.
“Já encaminhamos algumas demandas ao Ministério da Agricultura para tentar rever esses critérios de isolamento de lavouras.”O que ele acha mais problemático é a obrigatoriedade de manter um “cinturão” de 20 metros de largura em volta de lavouras convencionais. “Este cinturão ou bordadura deve ter milho convencional que não poderá, porém, ser colhido como orgânico, dado o risco de cruzamento com variedades transgênicas”, diz ele, explicando que para o produtor orgânico isso significa prejuízo. “Só que nós entendemos é que quem planta milho transgênico deve ser obrigado a fazer esta bordadura, este cinturão com plantas convencionais, e não os produtores orgânicos”, continua.
“A lei, atualmente, não define quem deve fazer, mas é claro que os orgânicos acabam fazendo, para evitar o risco de contaminação transgênica em suas lavouras”, conclui.A Korin, que mantém seus frangos orgânicos em Ipeúna (SP), acaba de agregar mais dois criadores de frango orgânico, que fornecerão a ave à Korin, na forma de integração. “Eram avicultores que já trabalhavam conosco, criando o frango natural, sem antibióticos ou promotores de crescimento”, explica Demattê. A empresa mantém uma lavoura de 3 a 5 hectares de milho orgânico, para abastecimento próprio, mas também depende do fornecimento de terceiros.Embora a dificuldade de obter o cereal o ano todo requeira grande planejamento logístico, a empresa vem registrando crescimento na produção da ave orgânica. “Desde que começamos, em 2008, já aumentamos a produção em 40%”, diz Demattê, sem porém revelar o número efetivo de aves abatidas/ano.


Fonte: http://www.correiodoestado.com.br

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